o espaço mudou de casa

Nosso espaço agora vive aqui, nos Vetores da Reconstrução — um espaço aberto de cartografia, sem fins lucrativos. É daqui que a jornada segue, e esta carta é o convite.

prólogo · meandros — by HS

O Mapa Nunca Será o Território

Bem-vindo à Jornada

Prof. Simone Hauck, MD, MSc, PhD
Psicól. Luciana Terra de Oliveira, MSc, PhD candidate

Aos meus pacientes — cartógrafos primeiros deste território, que confiaram sua caminhada a esta jornada muito antes de qualquer traço estar publicado. Cada linha do que existe aqui passou antes pela vida de vocês, e existe porque vocês existiram nela.

E às pessoas que caminharam ao lado, emprestando luz quando o desenho ainda era rascunho — obrigado.

Partindo de mais de duas décadas de experiência clínica e pesquisa em psiquiatria, especialmente nas áreas de psicoterapia, trauma, resposta ao estresse, burnout e personalidade, dados empíricos e observados em nossos estudos sobre exaustão e trauma começaram a apontar para um fenômeno comum — extremamente frequente em apresentações comumente classificadas como neurodivergentes, como autismo, TDAH, transtornos de aprendizagem (i.e. dislexia, dispraxia, TDC), altas habilidades e superdotação.

Além de responder de forma paradoxal a muitas intervenções consideradas "padrão", esses pacientes apresentavam — com uma frequência bem superior ao que seria razoável atribuir ao acaso — achados laboratoriais que, via de regra, não poderiam ser explicados pelo enquadramento usual, tampouco respondiam de forma consistente a protocolos padrão.

Da tentativa de compreender o que explicaria isso tudo, nasceu o que se constituiu como uma espécie de compreensão topográfica, a partir da qual foi possível estudar e tentar compreender uma organização que parecia funcionar a partir do que chamamos Ilhas, Desertos e Pontes (IDP) — ou Islands, Deserts and Bridges (IDB), em sua versão internacional.

A partir daí, da costura de tudo que observávamos com o enquadre da topologia IDP/IDB, emergiu o modelo HPCPh — Fenótipos de Alto Custo de Processamento (High Processing Cost Phenotypes — HPCPh). Até aqui, conforme as pecinhas encaixavam, contamos essa história aos poucos (Hauck, 2025; Hauck & de Oliveira, 2025; Hauck & de Oliveira, 2026a,b). Publicamos pedacinhos do quebra-cabeça, enquanto estudo, evidência empírica — casos em que essa perspectiva fazia diferença (resultados clínicos) — e discussão com colegas se acumulavam.

O artigo recém-aceito para publicação em uma revista muito importante da área da Neurociência e Comportamento — Neuroscience and Biobehavioral Reviews (aceito em 18 de setembro de 2026) — abre uma nova etapa. Aqui, começamos a contar a história inteira.

Foi uma trajetória de muito comprometimento, esforço, sacrifício e de incontáveis momentos em que pensar diferente cobrou um preço muito alto. Com o tempo, passamos a chamar esse esforço de cartografia: desenhar o mapa o melhor possível, a cada momento, com o conhecimento e os dados disponíveis.

Na cartografia, quando um traço do mapa não corresponde ao território, ele cai. O mapa não tem o poder de modificar o território. Nós resolvemos empreender um esforço metódico de nos ater a desenhar o que vemos, sem problema algum em apagar uma parte do rascunho quando a realidade nos mostra que deixamos de fora algum pedaço, ou que nosso traço desenhou algo que não corresponde de fato ao real.

Afinal, é muito importante desenhar nosso mapa o melhor que pudermos, pois ele nos guia. No entanto, o mapa nunca será o território — e isso é irrevogável.

Bem-vindo à jornada!
Se quiser, pegue um lápis grafite — pela nossa experiência, caneta não é o mais aconselhável.

Com carinho, Simone

Porto Alegre, 19 de setembro de 2026

Referências

  1. Hauck, S., & Terra de Oliveira, L. (2026). A Topological Architecture of Neurodivergence: Transdiagnostic Reframing of Autism, ADHD, Dyslexia, DCD, and High-Ability Profiles within the High Processing Cost Phenotypes (HPCPh) Framework. Neuroscience and Biobehavioral Reviews — accepted (2026, September 18).
  2. Hauck, S., & de Oliveira, L. T. (2026). Within-Person Physiologic State Transitions in Burnout-Like Functional Collapse Across Autistic and High-Ability Phenotypes: A Retrospective Longitudinal Case Series. PsyArXiv, 15 Aug. 2026. https://doi.org/10.31234/osf.io/qgam8_v1
  3. Hauck, S., & Terra de Oliveira, L. (2026). Extracellular matrix mechanics as an upstream organizing constraint in neurodivergent architectures: a hypothesis linking neural topology, volume transmission, and functional iron blockade. Medical Hypotheses, 2026, 112009, ISSN 0306-9877. https://doi.org/10.1016/j.mehy.2026.112009
  4. Hauck, S. (2025). Functional iron blockade in chronic stress and neurodivergence: a perspective on adaptive stress physiology. Frontiers in Psychiatry, 16, 1701625. https://doi.org/10.3389/fpsyt.2025.1701625
  5. Hauck, S., & de Oliveira, L. T. (2025). Beyond overdiagnosis: reframing autism prevalence through a neurodivergent phenotype lens. Jornal de Pediatria, 101(6), 101467. https://doi.org/10.1016/j.jped.2025.101467

Pegue o lápis!